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≡≡≡≡≡≡≡≡≡≡ 6.3.10

Biblioteca fútil do passado

Depois da «Miragem de Ostras Petrificadas do
Deserto», que soa a um romance perdido de
Konsalik, mas que sabe exactamente àquilo que é (...)

- Rogério Casanova com talheres, Revista Ler nº89,
edição histórica também por isto (já explico).


Muito antes de ser informado da existência de uma região demarcada que responde pelo nome solene de «literatura», tomei contacto - sobretudo pelas lombadas - com a vasta e imponente obra de Heinz Konsalik. A charada do ovo e da galinha não se aplica aqui: para mim, Konsalik nasceu indubitavelmente primeiro. Depois, só depois, veio a literatura, mas já era tarde.

Recuemos. Nos anos 80, como se sabe, estava bastante frio lá fora e ninguém disfarçava uma especial preferência em realizar actividades culturais dentro de casa, regra geral na presença ameaçadora de um aquecedor a gás, dos antigos, plantado na sala como se fosse um artefacto explosivo alugado à ETA ou uma chaimite anti-motim, mas quase sempre suficientemente robusto e competente na importante tarefa de fazer subir a temperatura ambiente junto aos pés e mãos das pessoas dos anos 80. De todas as actividades culturais praticadas na época algo medieval que antecedeu o acidente de Chernobyl, destacavam-se duas: o Subboteo e a Reunião Tupperware. O Subboteo consistia num jogo de futebol de tabuleiro que envolvia jogadores lingrinhas, em miniatura, enfiados em pequenas bacias de plástico que lhes arruinavam a vida sentimental e lhes impunham claras dificuldades de locomoção em linha recta, e a Reunião Tupperware correspondia a uma congregação de mulheres interessadas em caixas coloridas, laváveis, resistentes e capazes de armazenar, por muitos dias, contra a vontade de inúmeras crianças asfixiadas pela democracia, as mais diversas variantes de refeições à base de feijão verde. As tupperwares eram, no fundo, objectos de culto aos quais faltava, invariavelmente, uma tampa (ainda hoje falta).

Em suma, o importante era não sair de casa, muito menos para comprar livros. Se os livros quisessem, que aparecessem. Foi assim, nesta conjuntura favorável à indolência, que fermentou uma outra instituição: o Círculo de Leitores. Tal como o nome não indica, o Círculo de Leitores estava longe de ser um círculo e não tinha assim tantos verdadeiros leitores. De tempos a tempos, um senhor de bigode, e algo nervoso, aparecia lá em casa para falar com o meu pai e oferecer-lhe uma revista que era uma espécie de catálogo La Redoute sem modelos, sem calças, sem vestidos e sem lingerie. O senhor de bigode chegava resoluto e voltava, uns dias depois, ainda mais resoluto, isso era certo. Nessa altura, convinha ter os livros escolhidos e o cupão preenchido, pois julgo que o destino daquele homem dependia disso e, apesar de tudo, nós não éramos uma família cruel. Com os cupões, aliás, chegava-se a qualquer lado, desde que se quisesse chegar a um lado qualquer. Assim como hoje, os bebés vinham encomendados de Paris, numa cegonha, mas só se alguém tivesse enviado para lá o cupão, uns meses antes; talvez uma vizinha ou uma prima confiante nas virtudes do casal de acolhimento. Os cupões, tal a sua versatilidade, tanto nos podiam levar ao 1,2,3 como trazer-nos uma irmã. Felizmente, e sob o olhar de representantes do governo civil que fiscalizaram a operação e a credibilizaram, foi a segunda alternativa que me calhou em sorte. Na vida, é mais importante ter uma irmã do que uma Bota Botilde.

Como devem calcular, eu dispunha de pouco tempo para ler a New York Review of Books, por causa dos trabalhos de casa de Meio Físico e Social, das redacções sobre a Primavera, das contas de dividir com casas decimais e de uma inexplicável queda pela automutilação involuntária através da fricção de cotovelos e joelhos em superfícies de cimento arenoso. Exceptuando o período antes do verão em que o meu médico, e principal tirano, me colocava «o selo» e me recomendava sossego, como se eu fosse um empresário cinquentão à beira de um esgotamento, as coboiadas (não essas, as outras) e o futebol de rua comandavam a minha infância e pré-adolescência. Ao contrário do que acontecia com braços e pernas, a minha cabeça, curiosamente, foi preservada de agressões maiores e demorei uma eternidade até rachá-la pela primeira e única vez, e ainda assim com um corte tão superficial que nem precisou de ser suturado com pontos (Daniel: zero pontos), o que muito me entristeceu e envergonhou perante os meus pares. Ora essa falta de contacto com as recensões disponíveis nos clubes literários da época, não só me provocava comichões na nuca e frequentes ensimesmamentos ao pequeno-almoço (e já não era fácil encontrar a consistência certa para o Nestum Mel), como me obrigava a escolher os livros pela fotografia e pelo grau de aventura que a descrição da revista do Círculo de Leitores me prometia. Foi assim que construí, durante anos, a minha cultura livresca, um empreendimento executado por consecutivos maus caminhos e, no entanto, sem qualquer vestígio de remorso a ensombrar o meu desregrado projecto de leitor. Como era óbvio para toda a gente: Condessa de Ségur era coisa de meninas. Os livros de Konsalik, pelo contrário, falavam de assuntos importantes para um rapaz, condensados em títulos de elevado calibre: «Tubarões a bordo», «Batalhão disciplinar 999», «Manobras no Outono», «O médico de Estalinegrado», e, claro, «Mãos milagrosas». Mesmo «Conspiração Amorosa» não era um mau título. Quem pode atacar o brilhantismo de uma pessoa capaz de, em duas palavras, enxertar Inês Pedrosa em John Le Carré? Até as capas, que eram péssimas, eram óptimas. Penso que não restam dúvidas sobre a qualidade deste autor. Eu, por fracas razões que até o coração desconhece, devo-lhe muito (para aí mil escudos). Na verdade, para ser sincero, não me lembro de quase nada daqueles romances, mas, à minha frente ou nas minhas costas, ninguém diz mal do Konsalik, nem por cima do cadáver perfumado da Condessa de Ségur.

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